A verdadeira arte de Beltrachhi

A verdadeira arte de Beltracchi

A verdadeira arte de Beltracchi

Talvez você ainda não conheça Beltracchi, o “maior falsificador de obras de arte do século”, preso em 2010 após ter vendido mais de 300 obras falsas em nome de grandes artistas da pintura e faturado cerca de 30 milhões de euros no processo. Acabo de assistir ao documentário publicado em 2014 e que está disponível no Netflix sobre o pintor, confira!

Fazendo isso há mais de 40 anos, desde 1970, é difícil acreditar que este artista seja realmente tão pragmático e distante da arte como demonstrado no filme – como se fosse uma espécie de grande picareta motivado pela boa vida.  Ao meu ver, todos somos um pouco Beltracchi.

E talvez você pense  que ele copiava as obras conhecidas de grandes mestres, mas não. Seu trabalho ia além: ele buscava na história por peças não encontradas, ou conhecidas apenas por nome, e recriava o estilo daquele artista. Convencia avaliadores, assim, que suas obras eram na verdade de grandes pintores. Fantástico, não?

A verdadeira arte de Beltracchi foi ser pego, preso, utilizando um material que jamais utilizaria considerando sua experiência e o fato de que um erro, banal, o entregaria. E todos nós queremos, como Beltracchi, ser revelados à luz dos nossos pares. Todos queremos reconhecimento pelo nosso trabalho, pelas nossas paixões, mas nem sempre estamos dispostos a assumir o risco da frustração.

A verdadeira arte de Beltracchi foi ter coragem para ser o artista que é. Eu não consigo acreditar que a frieza demonstrada por ele no documentário citado seja verdadeira. Somos humanos e, ele, um artista. O principal combustível para a falsificação, ao meu ver, foi a insegurança.

Todos somos inseguros em algum grau, todos temos nossos medos. Ao mesmo tempo, queremos apresentar ao mundo quem realmente somos. Não é uma tarefa fácil. Estamos rodeados de pessoas que também sonham e que se debatem por um lugar ao sol, poucas realmente assumindo sua vocação. O sistema é duro e pouco gentil com a gente, que trabalha dia-a-dia para fazer as coisas acontecerem, para conseguirmos oferecer um pouco mais além do lugar comum para aqueles que amamos.

Presos, em dúvida, permanecemos muitas vezes em empregos que são bons, mas não são nossa paixão. Fazemos o que precisamos para manter as luzes acesas e para atender alguns caprichos. Pressionados pela difícil tarefa de “ser alguém”, esquecemos-nos de ser o que somos. Por medo, somos também um pouco Beltracchi, falsificadores, vivendo a imagem de outro, um eu que não nos representa, mas que representa algo com o qual conseguimos conviver.

Acho muito interessante como ele diz no filme que “há tempos sentia que algo aconteceria”. O engraçado foi ele ser aquele quem provocou a ação que mesmo previra. Eu o admiro. Não por ter roubado, como roubou, mas por ter finalmente aceito sua vida e sua vocação em seu próprio nome. Ter tido coragem para ser quem é.

Talvez você siga sua vocação,  talvez não. Talvez esteja em um emprego que ama, talvez não. O que realmente importa é que você saiba onde está e saiba que, em algum momento, você também vai se ver encurralado pela vida e responsabilizará a si mesmo pelo que fez e pelo que deixou de fazer.

Como Beltracchi, permita-se “sentir que algo está para acontecer”.

Um grande abraço,

Frederico de Azevedo Aranha

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